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TERAPIA COMUNITÁRIA: Manifesto defende maconha medicinal

TERAPIA COMUNITÁRIA

8/07/2006

Manifesto defende maconha medicinal

Um grupo interdisciplinar de pesquisadores está preparando um manifesto para confrontar um documento da Associação Brasileira de Psiquiatria - ABP sobre a maconha. Representantes das áreas de ciências biológicas e humanas, liderados pelo Psiquiatra Dartiu Xavier da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp, afirmam que a entidade tenta "demonizar" o uso da droga, ignora estudos relevantes sobre sua ação no cérebro e omite evidências legítimas da eficácia do uso medicinal da Cannabis.

O documento de protesto deve ser lançado em um evento na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - USP no dia 10/08 e carregará as assinaturas de Xavier, do Farmacologista Elisaldo Carlini, da Psicóloga Lídia Aratangy, do Jurista Miguel Reale Júnior, do Sociólogo Rubens Adorno e do Antropólogo Edward McRae. "Em princípio, só os autores vão assinar o documento, mas alguns pesquisadores estão procurando uma forma de manifestar apoio também", diz Xavier.

Segundo Carlini - defensor do uso medicinal, mas contrário ao uso recreativo -, a ABP parece adotar uma "pedagogia do terror" ao não se esforçar para divulgar publicamente as propriedades positivas da droga. "Não há empecilho de ordem científica para que não seja liberado o produto para uso médico com controle, assim como qualquer droga que tenha efeito sobre o sistema nervoso central", diz Carlini. "Todas as restrições que existem são mais de cunho ideológico", completa.

Segundo o Presidente da ABP, João Alberto Carvalho, o documento elaborado pela entidade, intitulado "Revisão Científica: Maconha e Saúde Mental", tinha como finalidade expor apenas os efeitos nocivos da droga, e não houve a intenção de omitir informações. "Temos espaço para abrigar visões diferentes e nosso congresso deste ano terá eventos sobre propriedades terapêuticas", diz.

Porém, o texto do documento disponível no site da ABP (www.abp brasil.org.br) afirma ter adotado uma visão "equilibrada" e diz ter como foco "os efeitos da maconha no cérebro".

Para Carlini, o problema do documento da ABP foi dar ao restante da comunidade médica a impressão de que a visão no texto era consensual. "Mas não há consenso nessa área, os grupos estão polarizados."

Ministério omisso

O pesquisador também criticou a atuação do Ministério da Saúde. Segundo ele, nenhuma das gestões mais recentes na pasta mostrou disposição para reativar o debate público sobre o tema - coisa que ele atribui também ao preconceito. O ministério, porém, diz que tem interesse em rever a situação no País.

Carlini revelou o conteúdo do manifesto na quarta-feira, 20/07. em palestra na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC, na qual apresentou argumentos para defender a legalização do uso médico da maconha e de seu princípio ativo, o THC. Estudos apontam que o uso da molécula é adequado contra dores de origem neurológica e anorexia induzida por doenças como câncer e AIDS. Segundo ele, substâncias menos benéficas e com efeitos colaterais mais graves do que os do THC já são drogas legalizadas sob prescrição. "A morfina, por exemplo, pode causar dependência e prisão de ventre acentuada", afirma ele.

Ministério diz ser a favor de debate
Pedro Gabriel Delgado, Coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, afirmou à Folha que a pasta apóia a exclusão da droga da mesma lista da Organização Mundial da Saúde em que estão incluídas substâncias como a heroína e cocaína. Sua manutenção nessa lista seria o principal entrave para a pesquisa clínica.

De acordo com Delgado, essa proposta foi encaminhada à ONU, mas até agora não houve resposta. Ele ainda afirmou que hoje é permitido fazer estudos clínicos com o THC, mas não com a droga "in natura". Caso haja uma decisão favorável ao uso terapêutico da droga, ele diz que uma consulta à Vigilância Sanitária pode ser suficiente para viabilizar isso, sem a necessidade de um projeto de lei.

Autor: Folha de S. Paulo
Fonte: OBID