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TERAPIA COMUNITÁRIA: Entrar na casa do Zé, um testemunho e um convite

TERAPIA COMUNITÁRIA

8/17/2006

Entrar na casa do Zé, um testemunho e um convite

////////////////////////////////////////////////////////////////////Maria Rita Seixas

//Eu tinha tudo para detestar o Curso de Terapia Comunitária que estava fazendo com Adalberto Barreto, durante minhas férias. Dada as circunstâncias, o cursava principalmente por solicitação do meu trabalho. Neste período, alguém muito querido da minha família apareceu com um problema sério de doença e me queria por perto, mas eu estava em um lugar internada (assim eu me sentia) sem poder dar-lhe todo o apoio de que precisava. Estava dividida, e isto me doía. Naquele momento, nenhuma pessoa do meu grupo de trabalho pôde estar ali assistindo o evento, e eu precisava muito de alguém junto a mim. Queria cuidar da minha netinha que havia nascido há um mês e precisava da avó. Voltei várias vezes para São Paulo, mas retornei para Itapecerica da Serra, onde estávamos reunidos . Por quê?

//Porque algo que eu recebia ali me fazia voltar. O que seria? Teorias inovadoras? Não. Conforto e afeto de amigos novos e antigos que lá encontrei? Isto ajudou bastante, agradeço a todos, mas não era o que me fazia voltar.

//Na hora não soube explicar. Só agora, à distância, é que comecei a relembrar; justamente quando comecei a escrever este artigo sobre Terapia Comunitária por solicitação da APTF, foi que me dei conta de que “entrara na casa do Zé” e não percebera.

//Este não é apenas um refrão com que se iniciam as terapias comunitárias. É a metáfora que nos assegura de que participamos de uma nova forma de se trabalhar “o sofrimento em comunidade” ao mesmo tempo em que tratamo-nos ao dela tratarmos. É o aprendizado de uma metodologia simples na sua essência, mas com a força das coisas inspiradas na espontaneidade do amor e do respeito ao próximo, o que permite a “cura” por meio do compartilhar.

//Ao nos dispormos a trabalhar a “dor” de alguém, estamos nos propondo a cuidar de sua falta de amor. Isto só será possível se, de alguma forma, conseguirmos provê-la de amor e melhorarmos a qualidade de sua vida afetiva. Esta tarefa que, à primeira vista, se assegura como impossível é o “ovo de Colombo” que este método de trabalho consegue por de pé. Adalberto conseguiu descobrir a fórmula por meio do redimensionamento do compartilhar em grupo, o que permite a cada comunidade resgatar o que ela tem de mais saudável.

//Como Moreno, Adalberto trabalha com a saúde e não com a doença. Quando escolhemos alguém de um grupo para trabalhar a sua “dor”, estamos nos irmanando com ele, fazendo-o protagonista de nossa dor, dizendo-lhe que sofremos com algo parecido – “só trabalhamos no outro, aquilo que tem a ver conosco” (Adalberto). Quando alguém explicita no grupo como saiu ou como está tentando sair de problema semelhante, está ofertando o que de melhor tem de si. Está amando o outro, comunicando-lhe suas experiências positivas, não para diminui-lo ou criticá-lo, mas para propor-lhe um novo caminho de saída para sua dor, dando-lhe a esperança que traz consigo a força de luta. Ao fazer isto, por outro lado, recebe o apoio da comunidade que também o fortalece para perseverar. Quando o coordenador, no final, pede ao grupo que diga o que cada um está levando para si neste dia, está solicitando que revele à comunidade sua capacidade de cura, fazendo-na cada vez mais crer em si própria. Assim, trabalhando com a capacidade de amor, fé, esperança e perseverança da comunidade (enfocando suas forças positivas) é que a tratamos por meio da terapia comunitária: substituímos a dor (doença) pela saúde (amor). Foi justamente isto que me fez ficar “na casa do Zé”.

//Enquanto trabalhávamos nas comunidades que apresentavam a nós “o seu sofrimento” e nas vivências em que o grupo de terapeutas trazia “o nosso amor”, eu ia sem querer revendo “a minha dor”. Encantava-me uma metodologia capaz de devolver às comunidades sofridas como são as nossas, a esperança de uma nova qualidade de vida, simplesmente porque sentiam que, em algum momento, alguém as amou e as acolheu.

//Dirão alguns: utopia, entusiasmo de momento. Minuchin, porém, já afirmou há muito tempo que as mudanças produzidas em sistemas se conservam na ausência do terapeuta pela própria característica de circularidade dos mesmos. Ora, não são as comunidades sistemas sociais?

//É impossível falar mais do curso, pois falar de amor só os poetas sabem. A nós cabe apenas vivê-lo na Casa do Zé. Iniciei compartilhando com vocês uma vivência minha e quero terminar fazendo-lhes um convite, isto porque, quem vive o bom, quer dividir com os amigos. Mas, só o aceitem se vocês forem capazes de encarar sua própria dor e, dividindo-a com seus companhei-ros, deixar sair tudo de bom que trazem dentro de si e receber em troca o amor retribuído: “Entrem conosco na casa do Zé”.

*Psicodramatista; terapeuta de casal adulto e família; doutora em Psicologia pela PUC/SP, coordenadora do Programa de Terapia Familiar - PROTEF da UNIFESP; ex-presidente e fundadora da APTF

Texto Extraído do site da Associação Paulista de Terapia Familiar

www.aptf.org.br