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TERAPIA COMUNITÁRIA: DAS QUATROS VARAS ÀS QUATRO VOZES

TERAPIA COMUNITÁRIA

8/15/2006

DAS QUATROS VARAS ÀS QUATRO VOZES

Adriana Carbone (*)

//Nutridos pelo II Módulo da Terapia Comunitária, desta vez realizado aqui em São Paulo – sem as brisas do Morro Branco e também longe do “Projeto Quatro Varas”, mas com o mesmo alimento da alma e do corpo: a terapia de Adalberto e os cuidados de Agatah –, retomamos na Comunidade do Jaguaré nossos trabalhos para 2003. No reencontro com meus companheiros de jornada estava o querido Padre Roberto, que abriu suas portas e o coração para o trabalho da APTF, e vem dia-a-dia nos incentivando e facilitando nossa inserção na favela e nas creches. Sob o olhar de Adalberto Barreto, assim como o de Fritjof Capra eu, Arlete, Márcia e Silvia estaríamos participando da construção de uma teia, mas, ao nos lembrarmos das varas é como se nos sentíssemos parte, as quatro, do “Cerco”. Isto remete à imagem da “Pesca do Cerco”, forma de pescar artesanal com varas alinhavadas, herança cultural indígena, na qual os mais sábios ensinam os mais jovens a construir o cerco de bambus para a pesca de peixes, e “ intergeracionalmente” transmitem seus saberes, permitindo que a comunidade de pescadores se nutra e sobreviva. Da mesma forma, esta imagem me remete ao trabalho da APTF, realizado desde 2001, e na parceria com SAN-Jaguaré.

//No início de meu trabalho nas creches, realizei co-construções de “Cercos”, em parceria com as diretoras Sueli, Dores e Regina, a partir dos “grupos de multifamílias” nos quais havia a conversação sobre problemas do cotidiano, da vida em família e na comunidade. Foram realizados encontros mensais em cada uma das creches às terças-feiras, às 15:00 hs, totalizando 40 conversações durante o ano de 2002. Puxa! Foram muitos os peixes que ficaram no cerco de bambu... Peixes que propiciaram a definição dos temas, propostos pela própria comunidade e que giraram em torno das questões de discriminação, estereótipos, dependência e co-dependência, mortes e perdas de filhos, roubo nas próprias creches, problemas de moradia e de enchentes, desemprego e falta de perspectiva, violência doméstica, criação e educação dos filhos, dificuldades no relacionamento conjugal e traição. Como Bergman, me senti “pescando barracudas” e, para tanto, nós – diretores, funcio-nários das creches e os moradores do Jaguaré – construímos juntos o “Cerco de bambus”, alinhavando-o, nó a nó, de modo a permitir o espaço de escuta destes problemas cotidianos tão sofridos. Nos encontros, contávamos com a presença de 40 a 50 pessoas que compartilhavam sua dor e sofrimento, na expectativa de serem ajudados ou apenas ouvidos.

//Este Cerco – Comunidade Jaguaré ampliou-se com a presença de pessoas do REMIS – Rede Multidiscilplinar Interativa de Saúde (voluntários do Colégio Santa Cruz), como a Dra. Débora Mainardi que abordou o cuidado que os pais e os profissionais devem ter com a alimentação e nutrição das crianças da creche. O projeto Morungaba, sob coordenação de Renata Neves, apresentou o trabalho sobre exclusão social e uma proposta de aproximação das crianças da creche com as crianças do colégio Santa Cruz. Em nossos encontros comunitários, contamos também com a presença de membros da Prefeitura do Município de São Paulo para discutirmos propostas de urbanização e de como se lidar com as enchentes. Todos estes temas foram transformados em motes de conversação para os membros da comunidade, com a proposta de se otimizar os recursos e as competências das pessoas, resgatando o “saber fruto da vivência”, de modo a deixar o saber técnico e científico à margem das propostas de resolução de conflitos no âmbito da realidade da favela.

//O trabalho de grupo de multifamílias, na perspectiva da prática comunitária, proposta compartilhada por Adalberto Barreto, continuará em 2003 e já conta com novos membros sócios da APTF como parceiros: Arlete Dall’Aqua, Márcia Volpone e Silvia van Enck Meira. Profissionais estas que foram responsáveis pelos atendimentos das famílias nas creches Santa Luzia e Vila Nova Jaguaré, realizando mais de 100 plantões de escuta às famílias e terapias familiares no ano de 2002.

//Do saber científico ao saber popular, continuamos co-construindo Cercos e pescando barracudas para o convívio em comunidade que, conforme nos lembra Sawaia, significa todas as formas de relacionamento caracterizado por um grau de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral e conti-nuado no tempo. A comunidade encontra fundamento no homem visto em sua totalidade, e não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social. A comunidade é a fusão do sentimento e do pensamento, da tradição e da ligação intencional, da participação e da volição. Assim estamos no Pró-comunidade, um projeto da APTF.

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(*)Adriana Carbone

· Psicóloga, terapeuta de família, professora universitária e membro do PROTEF/UNIFESP

Texto extraído do site da Associação Paulista de Terapia Familiar – APTF

www.aptf.org.br